E são mesmo. Uma placa fotovoltaica custa, em média, R$ 1.500. Para abastecer uma residência com quatro pessoas, seriam necessárias, pelo menos, 10 placas. Com os custos de instalação, baterias e inversor, um sistema isolado de energia solar para produção de energia elétrica sai em torno de R$ 30 mil. “A tecnologia ainda é muito cara, e o consumidor demora a receber de volta o investimento, que se paga em dez anos”, explica Carlos Salviano, da Salviano Engenharia, empresa que atua no setor. Não é à toa que o maior uso do potencial de energia solar no mercado doméstico é para aquecimento de água. “Hotéis, condomínios e residências de alto padrão são clientes frequentes. Deixam de consumir energia elétrica dos chuveiros e das torneiras e, em pouco tempo, desfrutam de uma economia de 20% a 30% na conta de luz”. Atualmente, o custo do sistema de aquecimento solar da água para uma casa com quatro pessoas e dois chuveiros, por exemplo, fica por R$ 3 mil e se paga em dois anos ou menos, dependendo da intensidade do uso. “Quanto mais se usa, mais rápido percebe o retorno do investimento”, ressalta Salviano, que estima um crescimento anual de 20% a 25% da procura por esse tipo de serviço.
As construtoras também já começam a enxergar os benefícios, passando a incorporar nos projetos aplicação de energia solar para água de banho, entre outras ações de sustentabilidade e eficiência energética. É o caso do condomínio Morada da Península, situado na Reserva do Paiva, Cabo de Santo Agostinho. Todas as 66 casas de alto padrão, além do clube e áreas comuns de lazer, utilizam painel de energia solar para aquecimento da água dos chuveiros e torneiras. “Houve uma boa aceitação do mercado. É uma tendência não só por parte dos clientes, mas dos empreendedores, que seria acentuada com incentivo fiscal”, destaca o diretor de Incorporação da Odebrecht Realizações Imobiliárias em Pernambuco, Luis Henrique Oliveira. Segundo ele, a sustentabilidade nos empreendimentos imobiliários ainda é um desafio porque não existem incentivos para aplicar esses dispositivos no mercado, encarecendo de 5% a 8% o custo total da obra. “Os empreendedores têm um custo a mais, e o benefício vai para o cliente, que não quer pagar por isso. Mas é bom para cidade e para as gerações futuras”.

Foi pensando no meio ambiente e na economia na conta de energia elétrica que o casal Lauro Castelo Branco e Ana Lúcia Miranda aceitou, assim como os demais vizinhos, a proposta da construtora de utilizar placas solares e boilers no prédio de classe média onde moram, na Madalena, Zona Oeste do Recife. Cada família dos 56 apartamentos pagou R$ 5 mil para fazer a instalação, ainda no início de construção do prédio, em 2004. “Em um ano e meio de uso, já foi possível perceber a economia de quase R$ 100 por mês na conta de luz”, afirma Lauro, que é síndico do edifício. “A água chega nas torneiras e nos chuveiros bem quente e é necessário fazer o controle com água fria para baixar a temperatura. No mais, é só controlar o tempo do banho dos filhos, sem esquecer de economizar água também”, completa Ana Lúcia, mãe de dois adolescentes.

À noite, a água fornecida ainda é morna. “Nos dias muito chuvosos ou no período do inverno, acionamos o aquecedor a gás natural, mas é apenas como apoio. Voltando o sol, automaticamente o fornecimento de gás é interrompido”, explica Jonas Bezerra, representante da Solar Tech, empresa responsável pela instalação e manutenção do sistema no prédio e em mais outros três na cidade. Para o diretor da construtora AC Cruz, André Callou, a demanda espontânea do consumidor para o uso de energia solar ainda não existe. “Se mais empresas apresentarem essas ofertas, vai despertar o interesse dos clientes, mas é importante também ter no mercado um maior número de fornecedores e empresas com capacidade de atender volumes”.
A expectativa é de que, assim como aconteceu com o estabelecimento da indústria de energia eólica, Pernambuco também consiga atrair investimentos para o avanço da energia solar no Estado. Especialistas esperam uma mudança substancial do cenário nos próximos anos. “Os custos da solar estão baixando com relativa rapidez. O preço está caindo muito. Espera-se que a competitividade da energia solar para a geração de energia elétrica seja uma realidade nos próximos cinco anos, está muito próximo”, salienta o professor e pesquisador do Centro de Energias Renováveis (CER) da Universidade Federal de Pernambuco Chigueru Tiba.
Na área da pesquisa, o tema também avança. De acordo com o professor, que coordenou a publicação do Atlas Solarimétrico do Brasil - Banco de Dados Terrestres -, o programa de pesquisa e desenvolvimento estratégico da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é um marco de virada para o setor. A iniciativa, chamada de “Arranjos técnicos e comerciais para a inserção da geração fotovoltaica na matriz energética brasileira” e lançada em outubro de 2011, engloba 18 projetos que somam 24,5 MW de potência e investimento de R$ 395,9 milhões. Um deles é a recém-anunciada usina solar na Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, Grande Recife.
O Brasil é um dos países com maiores níveis de radiação solar do mundo. Isso porque a maior parte do território brasileiro está localizada na Zona Intertropical, entre a linha do Equador e o Trópico de Capricórnio, de forma que não se observam grandes variações na duração solar do dia. No Nordeste, em particular, a diferença entre o inverno e verão é pequena, permitindo uma geração de energia plana, estável. “Se considerarmos o semiárido nordestino, é muito interessante porque não vai competir normalmente no uso e ocupação do solo. Temos baixa densidade de população, alto nível de radiação solar e a possibilidade de gerar emprego e renda na região”, enumera Tiba. A cidade de Petrolina, Sertão do Estado, por exemplo, apresenta de acordo com o Atlas Solarimétrico, potenciais para produção de energia solar comparados aos melhores sítios do mundo, como os da cidade de Dongola, no Sudão, e Dagget, no deserto do Mojave, Estados Unidos.
É em Petrolina onde o grupo de pesquisa de fontes alternativas de energia da UFPE está trabalhando há quatro anos na implantação de uma central termosolar de 1MW. O projeto, coordenado pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), entidade ligada à Eletrobrás, em parceria com a Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco (SecTec-PE), está em fase final de tramitação junto ao Finep. “Será o primeiro projeto de grande porte do Estado: a primeira central termosolar do Brasil e talvez até da América Latina, onde estaremos oferecendo um local de pesquisa e experimentação da tecnologia solar”, comemora. A previsão é de que o projeto comece a sair do papel em seis meses e tenha um prazo de três anos para ficar pronto. “Será o local com infraestrutura onde grandes empresas do setor energético poderão testar e experimentar tecnologia industrial, com oficinas e pessoal treinado”. Além disso, a UFPE lançou junto com a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) um projeto de usina fotovoltaica para produção de 2,5 MW e interligada à rede elétrica. “Com esses dois projetos, a plataforma de energia solar de Pernambuco estará caminhando para a consolidação”, afirma.
Fontes: NE10
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